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A vida comunitária, sem dúvidas é um desafio, e por mais que nossa condição de criatura foi pensada para conviver em grupo, ainda temos dificuldades e barreiras a transpor todos os dias. Imaginem só, se no seio de nossa casa convivemos com pessoas que naturalmente nos conhecem e nos amam gratuitamente (mesmo as vezes não demonstrando) já encontramos dificuldades de convivência, entendimento e valores, imaginem dentro de uma vida comunitária religiosa, onde temos que conviver com pessoas que não conhecemos, não temos intimidade e principalmente são muito, mas muito diferentes de nós?

É uma ilusão achar que em um grupo grande de pessoas, conseguiremos ser íntimos e amigos de todos. É obvio que em meio a qualquer círculo social que se une por uma causa, motivo ou carisma vamos criar laços e afeições com alguns e vamos divergir e encontrar barreiras de convivência com outros. Isso é saudável e são justamente essas divergências de pensar e agir que nos formam, nos moldam e nos leva viver uma vida de santidade.

A história da MHN é cercada de idas e vindas, de encontros e despedidas, algumas que nos deixaram com paz no coração, e outras que nos fazem sangrar até hoje. Nesses quase 10 anos fomos formados por Deus a olhar para cada história com misericórdia e amor, tentando superar as divergências, escândalos e desavenças e entender o cuidado de Deus em tudo, e também aprender e olhar para dentro, para o intimo para aquilo que eu de forma direta e indireta contribuí para essas perdas!

Sim! Perdas! Cada pessoa que se afasta do carisma leva consigo um pedaço dele, e um pedaço de tudo que deixamos nele nesse tempo de convivência. Sabemos que ir e vir é uma realidade habitual em processos vocacionais, ninguém, repito, ninguém entra em um processo vocacional com a certeza de que ali é seu lugar. E se você tem essa certeza saiba, que precisará abrir mão dela para viver a experiência completa desse tempo de gestação no carisma.

Quando perdermos alguém do carisma, qual deve ser nossa reação? Alegria? Alívio? Deboche? Especulação? Julgamento? Não! E por mais que infelizmente essas sejam as principais ações que de cara colocamos em prática, o único sentimento que devemos ter é Paz e Dor. Paz, para os que perdemos para Deus, para outras vocações, carismas e apostolados. E dor, para quem perdemos para o mundo, para o pecado e para confusão.

Quando recebemos a notícia, ou percebemos a saída de algum membro, antes de especular motivos, ou expressar nosso alívio ou descontentamento, precisamos fazer um exercício de contrição, avaliando como eu de forma direta ou indireta contribuí para esse acontecimento. O que eu poderia ter feito? Com eu poderia ter contribuído para que esse irmão ou irmã permanecesse fiel? Claro que permanecer em Deus e no carisma é uma decisão pessoal, e temos que estar dispostos ao sofrimento para assumirmos as propostas que Deus nos faz.  Mas se pararmos nesse ponto individual de nossa vocação, jogamos por “água abaixo” todo o chamado de viver em comunidade. E precisamos questionar se a vida fraterna religiosa é realmente meu lugar! Se eu não estiver disposto a morrer pelo carisma e com isso, morrer um pouco todos os dias para minhas vontades e fazer dessas perdas pessoais, degraus para os irmãos, eu realmente não estou pronto a viver em comunidade.

Nem sempre precisamos saber os motivos, não é uma obrigação do conselho ou do time de formadores expor nada aos vocacionados, nós como membros não precisamos de justificativas, então evitar especulação é a forma mais bela de praticar obediência e confiança para com a comunidade e suas decisões. Portanto depois do ato de contrição ser feito, preciso intensificar minhas orações e se puder, e sentir vontade permanecer próximo a essas pessoas. Elas precisarão de bons amigos.

Estamos vivendo um novo folego, um novo tempo onde a esperança florirá, essa é a promessa! Nós somos a promessa de Deus para esse carisma, que não precisa de nós mas quis contar conosco. Portanto precisamos estar atentos para que algumas situações dolorosas, lições aprendidas na dor e nas lágrimas, não volte a acontecer! Queremos ser um carisma que acolhe, forma, mas sobretudo que devolve à igreja potências de evangelização. Pedimos a Virgem Maria, que é o cofre desse carisma, dela emprestamos cada abraço que damos e a ela devolvemos todas vocações que se perdem ou são discernidas pertencentes ou não ao carisma. Que ela nos conduza e nos ajude a estarmos dispostos a imitar a Cristo em tudo!

 

Paz e Afetividade.

Caio Bonicontro.